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Segredo da 'zona da meia-noite': por que raias gigantes descem a 1 mil metros antes de viajar?

Raia-manta-oceânica faz mergulhos a mais de 1 mil metros de profundidade davelascoc / iNaturalista Não é fome, nem medo. Quando a raia-manta-oceânica (Mobul...

Segredo da 'zona da meia-noite': por que raias gigantes descem a 1 mil metros antes de viajar?
Segredo da 'zona da meia-noite': por que raias gigantes descem a 1 mil metros antes de viajar? (Foto: Reprodução)

Raia-manta-oceânica faz mergulhos a mais de 1 mil metros de profundidade davelascoc / iNaturalista Não é fome, nem medo. Quando a raia-manta-oceânica (Mobula birostris) — uma das maiores e mais carismáticas criaturas dos mares — decide mergulhar em direção à escuridão total das profundezas, ela pode estar, na verdade, consultando um 'mapa'. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no WhatsApp Um estudo pioneiro publicado na revista científica Frontiers in Marine Science revelou um comportamento inédito: estes animais descem a profundidades que ultrapassam os 1,2 mil metros, na chamada zona da meia-noite (ou zona batipelágica), não para caçar, mas para coletar informações ambientais cruciais para sua orientação. A descoberta desafia o que se sabia sobre a espécie e sugere que, na imensidão monótona do oceano aberto, as raias precisam "tocar o fundo" — ou chegar perto dele — para calibrar seu 'GPS' interno antes de grandes viagens. Segredo da 'zona da meia-noite': por que raias gigantes descem a 1 mil metros antes de viajar? davelascoc / iNaturalist O mistério do mergulho extremo Para desvendar os segredos dessas gigantes, uma equipe internacional liderada por pesquisadores da Universidade Murdoch (Austrália) rastreou 24 raias-manta na Indonésia, Peru e Nova Zelândia. Utilizando etiquetas de satélite de alta tecnologia, eles registraram mais de 46 mil mergulhos. Veja mais conteúdos do Terra da Gente: AS DIFERENÇAS: Conheça a serpente que 'finge' ser jararaca para sobreviver DESCOBERTA: Nova espécie prima da jabuticaba e com pelos dourados é descoberta MEDICINAL: Mama-cadela, a poderosa fruta do Cerrado que pode ser mascada como chiclete A maioria dos mergulhos era rasa, onde a vida e o alimento (o plâncton) abundam. Mas, em 79 ocasiões, os cientistas registraram o que chamaram de "mergulhos extremos", ultrapassando a barreira dos 500 metros. O recorde registrado foi impressionante: 1.246 metros de profundidade. "Propomos que mergulhos extremos permitem que as raias-manta oceânicas levantem as propriedades da coluna d'água... para guiar a navegação e a decisão de deixar ou permanecer em uma área." — Trecho do estudo. Como funciona o 'GPS' das profundezas Raia-manta-oceânica faz mergulhos a mais de 1 mil metros de profundidade albertkang / iNaturalist O que intrigou os cientistas foi o perfil do mergulho. Quando uma raia mergulha para comer, ela faz movimentos de "sobe e desce", oscilando para capturar presas. Mas nos mergulhos extremos, o padrão era totalmente diferente: A queda Livre: A raia desce em alta velocidade (chegando a quase 3 metros por segundo), muito mais rápido do que o normal. Os degraus: Durante a descida e a subida, elas fazem breves pausas, como se estivessem parando em andares específicos de um prédio para "sentir" o ambiente. Sem comida: Elas não ficam tempo suficiente no fundo para se alimentar. A conclusão dos pesquisadores é que esses mergulhos funcionam como uma missão de reconhecimento. Na zona profunda, as condições de temperatura e oxigênio são estáveis e podem servir de referência. Além disso, acredita-se que elas estejam detectando gradientes geomagnéticos — linhas invisíveis do campo magnético da Terra que funcionam como rotas de navegação. O estudo notou que, frequentemente, logo após um desses mergulhos profundos, a raia iniciava uma viagem de longa distância, percorrendo centenas de quilômetros em poucos dias. É como se elas descessem para checar o trânsito e o mapa antes de pegar a estrada. Raia-manta-oceânica faz mergulhos a mais de 1 mil metros de profundidade rafi1 / iNaturalist O custo do frio Mergulhar na zona da meia-noite tem um preço alto. Nessas profundidades, a luz do sol não chega e a temperatura despenca para perto de 4°C. Como as raias não têm a capacidade de reter calor corporal tão bem quanto outros gigantes do mar (como o atum ou o tubarão-branco), elas precisam se preparar. Os dados mostraram que, antes e depois desses mergulhos, as raias passam longos períodos na superfície, "tomando sol" para aquecer o corpo — uma estratégia de termorregulação vital para sobreviver ao choque térmico das profundezas. Veja o que é destaque no g1: Veja os vídeos que estão em alta no g1 Conservação além da superfície Essa descoberta muda a forma como pensamos a preservação da espécie, que hoje é classificada como ameaçada de extinção. Proteger apenas os recifes de coral onde elas se alimentam e limpam não é suficiente. "Em ambientes de oceano aberto, onde pontos de referência externos estão ausentes, mergulhos custosos, mas infrequentes, podem fornecer informações críticas para movimentos de longa distância", alertaram os autores do estudo. Se as raias usam o fundo do oceano como mapa, a mineração em águas profundas e a perturbação desses habitats podem deixá-las, literalmente, perdidas no azul. Quem é a gigante dos oceanos? Raia-manta-oceânica faz mergulhos a mais de 1 mil metros de profundidade jane_tours / iNaturalist A raia-manta-oceânica (Mobula birostris) é a maior espécie de raia do mundo, podendo alcançar até 7 metros de envergadura e pesar cerca de 2 toneladas. Diferente de suas "primas" que vivem repousando no fundo de areia, esta espécie é pelágica, ou seja, vive em constante nado pelos oceanos tropicais e subtropicais do globo. Dóceis e desprovidas de ferrão venenoso, são animais filtradores que usam seus lobos cefálicos (os "chifres" na cabeça) para direcionar grandes quantidades de zooplâncton para a boca enquanto nadam. Apesar de seu tamanho, a espécie é altamente vulnerável e está classificada como ameaçada de extinção na Lista Vermelha da IUCN. O estudo recente publicado na Frontiers in Marine Science reforça que esses animais são viajantes de longa distância, capazes de percorrer mais de 1 mil km em migrações que cruzam fronteiras internacionais. A descoberta de que utilizam as profundezas para navegação evidencia ainda mais a complexidade de seu comportamento e a necessidade urgente de proteger não apenas as águas costeiras, mas também os corredores de alto-mar por onde transitam. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente